25 abril 2007

LETRA PARA UM HINO



É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

É possível viver de outro modo.
É possível transformar em arma a tua mão.
É possível viver o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.

Manuel Alegre, O Canto e as Armas

23 abril 2007

Os Sorrisos de Fadas e de Príncipes

Na televisão, uma jornalista interpelava uma criança, que contaria não mais do que uns ternurentos 6 anos, sobre o amor:
- "Sabes, gosto quando ela sorri!
- Porquê?
- Porque fica assim com os olhos brilhantes, parece que é uma fada!"
Tenhamos nós, adultos, o dom de ressuscitar estas fadas e príncipes encantados e talvez a felicidade...simplesmente aconteça. Com sorrisos de fadas e de príncipes, que não encantados, mas sim desencantados de dentro de cada um de nós!

Caucau

21 abril 2007

Dancemos e encantemo-nos...


Ontem fui assistir a um espectáculo de dança, integrado no mês da Dança, promovido pela Câmara Municipal de Vila do Conde. O espectáculo foi protagonizado pelos alunos de uma Academia de Dança, Gimnoarte, que se mostraram verdadeiros profissionais na arte das pontas. Excelentes executantes, harmoniosas coreografias e, até o cuidado no guarda roupa não se fez rogar. Voamos pelas histórias de encantar da Walt Disney, fomos transportados à Cidade Luz e aos seus cabarets, terminando nos hits do discossound actual.
A graciosidade das danças fizeram-me voar sem sair da cadeira do auditório, repleto de familiares orgulhosos (e ruidosos) pelos feitos dos seus rebentos.
Como sonhadora, fixei-me nas histórias de encantar!

Caucau

18 março 2007

Cativar para enlaçar


"...«Cativar» quer dizer o quê?
É uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Quer dizer «criar laços»...
Criar laços?
Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti...
(...)Só conhecemos o que cativamos - disse a raposa. - Os homens deixaram de ter tempo para conhecer o que quer que seja. Compram as coisas já feitas aos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens deixaram de ter amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
E tenho que fazer o quê? - disse o princepezinho.
Tens de ter muita paciência. Primeiro, sentas-te longe de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas podes-te sentar cada dia um bocadinho mais perto..."


in "O Princepezinho", Antoine de Saint-Exupéry

22 fevereiro 2007

Sabes... talvez fusão?!

Sabes quando duas coisas se unem, mas conservam a sua identidade pessoal, reforçando-a?
Sabes quando não identificas onde começas tu e acaba o outro e vice-versa, e isso não te despersonaliza, só te torna mais completo?
Sabes quando as tuas alegrias reforçam as minhas?
Sabes quando as tuas mágoas e agonias me colocam no caminho de contigo engendrar soluções para as converter positivamente?
Sabes quando o teu silêncio é também sinal sonoro?
Sabes quando o sentir-te escusa palavras?
Sabes quando sintonizo o que sentes e pensas, diria, quando telepaticamente comunicamos?
Sabes quando a imensidão do afecto ultrapassa a barreira do teu corpo físico?
Sabes quando não precisas de nada para teres mesmo tudo?
Sabes quando fazemos das banalidades quotidianas coisas deveras especiais?
Sabes quando partilhar é expressão do dia-a-dia?
Sabes quando a interdependência surge como mais valia?
Sabes quando os teus sorrisos rasgados me enchem a alma?
Sabes quando o respeito não é exigido mas se torna devido?
Sabes quando a tua luz me ilumina?
Sabes quando a confiança acontece?
Sabes, talvez possamos chamar-lhe
fusão?!...


Caucau

07 fevereiro 2007

(Um) Caminho...


"Sem saber se o tempo existia, se aquele desfilar durara um segundo ou cem anos, se existia um Siddartha ou um Gautama, um Eu e outros, profundamente ferido por uma seta divina que lhe causava prazer, profundamente fascinado e exaltado, Govinda permaneceu ainda um momento inclinado sobre o rosto pacífico de Siddartha, que acabara de beijar, o rosto que fora o palco de todas as formas presentes e futuras. O seu semblante não se modificara, depois do espelho das mil formas se ter apagado da superfície. Sorria pacífica e ternamente, talvez muito graciosamente, talvez muito ironicamente, tal qual como o Sábio sorria. Govinda fez uma vénia profunda, enquanto lágrimas incontíveis lhe deslizavam pelo rosto velho. Avassalava-o um sentimento de grande amor, da mais humilde veneração. Inclinou-se muito, até ao chão, defronte do homem imóvel, cujo sorriso lhe recordava tudo quanto jamais amara, tudo quanto jamais fora valioso e santo na sua vida."

in Siddartha, Hermann Hesse

05 fevereiro 2007

À Sorte!


Quase lhe chamaria sorte,

encontrar o Norte

sem tão pouco o procurar!


À sorte nos entregamos,

sem medo dos mortos

que fomos capazes de enterrar.


Imprudente, dizem do amor,

mas esse é o seu esplendor

que a sorte nos fez encontrar!


Caucau

03 fevereiro 2007

Sempre Elis!


Aproveitando as comemorações dos 25 anos volvidos sobre a morte de Elis Regina, deixo aqui este singelo apontamento enquanto sua fã.
Tinha uns 19 anos quando pela primeira vez escutei a mestria da sua voz. A sensação foi de arrepio.
A união da virtuosidade técnica à expressão, sublime, dos sentimentos, soaram-me a magia. Não se explica, sente-se.
A emoção, a energia, a ira, a revolta, o sarcasmo, a sátira, a liberdade, a inteligência, a sensualidade, o doce disfarçado de amargo apresentaram-ma como uma "força da Natureza".
A lucidez de uma mulher, de uma artista, que tão incomodamente aproveitava as inúmeras entrevistas para trazer à ribalta os atropelos sobre os Direitos Humanos, ainda hoje tão presentes, no país que a viu nascer.
Ontem, hoje e sempre o meu ouvido e a minha alma continuam a solicitá-la, devotamente!

Caucau

Deixo aqui alguns excertos de entrevistas realizadas à "Pimentinha":

"Ela é uma mutante confessa:

Eu sou meio mutante mesmo, mas antes eu me sentia um pouco perdida. Aquilo que eu estava fazendo não combinava com o tipo de música que eu estava querendo cantar. Aquele negócio de você ver o capim crescer na sua casa sem tomar providência nenhuma. Um dia você se dá conta e o capim já virou mato e aí você sente que está emaranhada nele. Então tem que cortar o mato. É difícil mas é bom porque você se deu conta, entende? (Zero Hora/ 1974)

Uma permanente pesquisadora:

Aprendi que a vida é feita de dois lados. Você precisa conhecer o lado torto para conhecer o lado bonito. Então, nesse sentido, todas as experiências pelas quais nós passamos são absolutamente válidas (O Globo/76)

Uma criatura preocupada:

De excelentes cantoras o Brasil e o mundo andam cheios. A mim não me interessa ser uma boa cantora a mais. Quero o usar o dom que a Mãe Natureza me deu pra diminuir, com ele, a angústia de alguém. Essa idéia é que pode dar sentido ao meu trabalho. E é por isso que cultivo essa idéia com carinho, todo dia (Correio do Povo/ 75)

Uma grande amiga:

Eu só acredito em trabalho em conjunto e sou do tempo em que os grupos se reuniam. E minha maior preocupação era realmente fazer com que meu grupo fizesse por onde merecer esse nome (Última Hora/76)

Uma pessoa de fé:

Quero sofrer tudo até a última gota, quero tudo a que tenho direito – as coisas boas e ruins – e não pretendo deixar nada pra ninguém (Jornal do Brasil/ 76)"

23 janeiro 2007

Eles não se entendem mesmo!
















"Sabes, eles não se entendem. Andam há um ano no Tribunal a lutar pelo meu poder paternal. Imagina, já mudaram de advogados três vezes. Não se entendem mesmo!"


Carolina, 6 anos (nome fictício)

Enquanto "eles não se entendem", as crianças parecem ter que continuar a entende-los, precocemente demais, por imposição de uma Justiça que continua longe de defender os seus superiores interesses. Uma Justiça que ainda os apelida de "menores", negando-lhes demasiadas vezes o ser criança, enquanto sujeito de direitos e deveres. Negando-os como cidadãos e elegendo-os a troféu deste esgrimir de nadas face a seres que podem ainda ser tudo! Coloquemo-nos de cócoras, escutemo-los, sejamos capazes de compreender tudo o que os seus sorrisos, ou a ausência deles, encerram. Talvez assim haja "domingo no mundo"e eles finalmente entendam que os filhos não são feudos!

Caucau


17 janeiro 2007

Não à Manipulação das Emoções!


Há 9 anos atrás, encetando a vintena da vida, votei no referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez.
Para mim, o direito ao voto sempre assumiu o sentido de dever de participação e de responsabilidade cívica. Além de que, reportando-me à história político-social portuguesa, este direito, para as mulheres, representa um marco nas lutas feministas contra a discriminação entre sexos, contra a inferioridade da mulher.
Mas, encerrando o parêntesis histórico, e regressando à reflexão sobre o aborto, ou assepticamente denominado “interrupção voluntária da gravidez”, devo dizer que este era um tema de conversa frequente nas animadas tardes passadas no “bar do Geninho”, a par de tantas outras discussões tão efusivas quanto construtoras de uma consciência social, sobre a pena de morte, a eutanásia, a despenalização da utilização de drogas, a adopção…sobre a(s) vida(s)!
Na época, estudante de Serviço Social, activa e muito revolucionária no que respeita aos direitos humanos, esta era uma questão que me suscitava particular interesse, apelava à minha condição de mulher, de cidadã, de activista pelos direitos humanos e enquadrava-se no compromisso há muito assumido em prol da justiça social. Hoje, exercendo uma profissão desde a sua génese comprometida com os direitos humanos e de matrimónio indissolúvel com a justiça social, ainda que menos revolucionária(!), o destaque que o tema reclama é o mesmo, infelizmente!
O aborto clandestino continua a existir! Para umas tantas mulheres, realizado em sofisticadas clínicas, maioritariamente sediadas em terras espanholas. As “outras”, a quem quotidianamente escuto as vidas, demasiadas vezes, espartilhadas, fazem-no clandestinamente num “vão de escadas”, por habilidosos sem escrúpulos e, empenham-se aos vizinhos e familiares mais afortunados para o poderem pagar. Não raras vezes ficam com sequelas para a vida - infertilidade e morbilidade- quando esta não lhes é ceifada.
Deste modo, entendo que votar sim neste referendo não é um não à vida, é sim um grito contra o aborto clandestino enquanto problema de saúde pública, contra as perseguições, os julgamentos, a hipocrisia e o fundamentalismo.
O sim encerra em si a responsabilidade pública da defesa e promoção de um investimento efectivo:

  • na educação sexual nas escolas (a começar pelos Jardins de Infância), diria mesmo, na educação no seu sentido mais lato;
  • no Sistema Nacional de Saúde, facultando a acessibilidade a consultas de saúde sexual e reprodutiva, em tempo útil e de qualidade, e mantendo a gratuidade na disponibilização de métodos contraceptivos;
  • na não discriminação entre as mulheres, independentemente do meio sócio-económico do qual provêem;
  • na igualdade de oportunidades entre géneros;
  • numa política social de apoio às famílias.

A questão do aborto ultrapassa qualquer ideologia política e qualquer crença religiosa, é uma questão de humanidade, de cidadania e de democracia.
Em 1998 disse sim à dignidade e à justiça, recusando todo o fundamentalismo expresso nas campanhas (des)informativas, volvidos 9 anos, reiterarei o sim a uma dignidade e justiça que têm vindo a ser adiadas neste país!

Caucau

15 janeiro 2007

O Direito à Defesa...



Para todos aqueles que reclamam a actualização deste blog apraz-me referir que:
  • o tempo é finito, logo há que saber rentabilizá-lo;
  • a energia tem limites, logo há que canalizá-la eficientemente;
  • a construção faz-se na interacção com o(s) outro(s), logo faz-se na vida "real";
  • os sentimentos exprimem-se, mas o seu sentido mais amplo decorre da experimentação;
  • os afectos requerem todos os sentidos, aqui alguns estão-me vedados;
  • o meu único compromisso é ser feliz ... e os blogs sabem esperar, de resto, os amigos também!
Caucau